Brigit

Brigit, Brigantia, Brigida, Mama Brigitt. Muitas são as derivações de seu nome, “breo-aigit”, que quer dizer, Flecha flamejante, flecha esta que percorre a fronteira do passado e presente, iluminando corações por onde passa.

Brigit é considerada uma das mais importantes deusas do panteão céltico. Na mitologia celta ela é filha do Dagda, o Bom Deus. No Glossário de Cormac escrito no século IX – um glossário de deuses, deusas, práticas e folclore recolhidos de escrituras e fontes orais – Cormac diz:

“Brigit, isto é, uma poetisa, filha do Dagda. Brigit é a sábia, ou mulher da sabedoria, isto é, Brigit a deusa que os poetas adoram, pois muito grande e muito famosa é sua proteção. É por isso que eles a chamam de deusa dos poetas, pelo seu nome. Suas irmãs eram Brigit, a médica (mulher das artes médicas), Brigit a ferreira (mulher do trabalho de ferraria), desses nomes com todos os irlandeses, uma deusa é chamada de Brigit”.

É relacionada à poesia, à cura e à forja, foi também associada ao o fogo e ao lar e a outras artes femininas como: partos, fabricação de cerveja, tecelagem e tinturaria, além de protetora das crianças e animais domésticos, especialmente as vacas. Outro símbolo da Deusa é a serpente branca, associada a seus poderes de cura e regeneração.

Devido a sua associação com a cura existem, espalhados pela Irlanda, muitos poços e fontes dedicados a Ela, os quais o povo alega curarem de diversos males e doenças. Em sua associação com a poesia, é considerada a protetora dos Bardos, Brigit traz a inspiração divina, a ‘Awen’ inspirando profecias e divinações.

Brigit é a Deusa do Fogo, mas especificamente, o Fogo do Lar. É ela que une a família ao redor da lareira nos meses de inverno e frio. Uma lenda já contada nos tempos cristãos, diz que quando Brigit nasceu no amanhecer, sua casa ardeu até chegar ao céu um brilho incrível que era tão poderoso quanto o Sol, e dos cabelos dela, saia uma torre de fogo perpétuo.

Brigit possui, também, uma face guerreira, chamada de Bríg Ambul, a protetora dos Fianna.

Suas funções atribuídas são correspondentes às três classes da sociedade: Deusa da inspiração e da poesia – Classe Sacerdotal; Protetora dos reis e dos guerreiros – Classe Guerreira e Deusa das técnicas – Classe de artesãos, pastores e agricultores.

Voltando ao glossário de Cormac, Ela é vista primeiramente como uma deusa tripla, de poesia, ferraria e cura (não como donzela, mãe e anciã), e as três muitas vezes se apresentava para Cormac como Brigit, ou o nome Brigit é na verdade um título, e não um nome por si só.

Outra referência a ela como uma Deusa, está no Livro das Invasões da Irlanda do século XII, que dá uma história mitológica da Irlanda. O Livro diz:

“Brigit a poetisa, filha do Dagda, tinha Fe e Men, dois bois reais, de onde Femen é nomeada. Ela tinha Triath, rei de seus javalis, de onde Treithirne é nomeado. Com eles estavam, e ouvimos, os três gritos demoníacos depois da rapinagem na Irlanda, sibilo, choro e lamentação. Ela tinha Cirb, rei dos carneiros, de onde Mag Cirb é nomeado”.

Neste trecho a Deusa é associada ao Javali, um animal selvagem, e ao boi e ao carneiro, animais domésticos, mostrando assim duas faces da Deusa, uma feroz e outra ligada à fertilidade e ao alimento.

Ainda de acordo com o livro “Os mitos celtas – Pedro Pablo G. May“, suas vacas produziam um lago de leite e proporcionavam alimentos inesgotáveis. Com uma só medida de malte, Brígida era capaz de produzir cerveja a todos os que a pedissem. Suas duas irmãs estavam relacionadas com o dom da cura e do artesanato. Muitas vezes, as três eram tratadas como uma única divindade.

A Deusa aparece novamente como parte dos Tuatha Dé Danann no mito da Batalha de Maigh Tuiredh (do século XII, mas baseado no material do século IX), que conta o conflito entre os Tuatha e os habitantes da Irlanda, os Fomorianos. Aqui ela é apresentada como uma mediadora casada com o rei fomoriano Bres, embora ela seja a filha do Dagda dos Tuatha De Danaan. Seu filho, Ruadan, fere o ferreiro Goibniu dos Tuatha, e é morto pelo mesmo. Está escrito que:

“Bríg veio e lamentou pelo seu filho. Primeiro ela gritou, e por último ela chorou. Então, essa foi a primeira vez que choros e gritos foram escutados na Irlanda”.

Nesse trecho ela é retratada como a mãe que cuida e lamenta a perda dos filhos.

A morte de seu filho Ruadan trouxe o primeiro caoine (keening = grito desesperador), que segundo as tradições foi um lamento terrível ouvido por toda a Irlanda, e nesse dia nasce a tradição das mulheres que choram, lamentam e contam a história do morto durante os funerais na Irlanda.

Sua festa, em 1º de fevereiro no hemisfério norte e 1º de agosto no hemisfério sul, conhecida como Imbolc, que também pode ser chamado de Oímealg ou Oilmelc, está ligada ao período de amamentação das ovelhas. A festa celebra a volta da primavera e também é um período para purificações de casas e celeiros a fim de afastar os resíduos do inverno. Os ritos de Imbolc estão ligados ao retorno do calor e da luz, o início de uma nova temporada de crescimento, abundância, fertilidade e saúde.

Além do costume de confeccionar a Cruz de Brigit, as pessoas também colocavam pedaços de pano amarrados em galhos de árvores para quando Brigit passasse à noite “abençoasse” os panos, colocando neles fertilidade e energias de cura.

No livro “Maravilhosos contos dos Mitos e Lendas Escoceses – Donald Alexander Mackenzie” há uma lenda escocesa em que Bride é aprisionada por Beira (Cailleach). Beira representando o senhorio do Inverno e Bride representando a Primavera. Nesse caso, Angus é o amado, que vem em resgate a Bride, e na batalha com Beira, surgem acidentes geográficos.

Em alguns textos ela é associada a Danu e Cailleach formando uma trindade (jovem, mãe e anciã) e em outros associam Brigit e Cailleach a mudança das estações. A Deusa tomando a forma de Cailleach quando o inverno está chegando (Samhain) e voltando à forma de Brighid no Beltane.

No que toca à sua ligação ao fogo e à aurora – nos mitos insulares, a aurora aparece aludida como uma coluna de fogo que brota da cabeça de Brigit – é a Cros Bríde, a Cruz de Brigit. Apesar de existirem vários designs, a forma mais comum é a que se assemelha a uma suástica. É possível que haja um paralelo com a cultura Báltica, em que uma suástica (voltada no sentido anti-horário) possa representar o fogo.

Brighid foi adaptada pela igreja como Santa Brígida de Kildare (Irlanda), e ainda hoje é uma das entidades mais venerada pelos religiosos irlandeses. A santa é conhecida em Gales como St.Ffraid, a freira (the Nun), que foi muito cultuada na Idade Média.

Em Kildare, o lugar onde seu culto era forte, havia uma irmandade de dezenove sacerdotisas que protegiam uma Chama Eterna para Brigit, impedindo que esta chama se apagasse. O número 19 é considerado sagrado para a Deusa. Em Kildare 19 virgens mantêm acesa a chama perpétua de Brigit. Magias dedicadas à Brigit costumam levar 19 dias. O número 3 também lhe é sagrado, por ser considerada uma Deusa tríplice.

No Vodu existe uma loa (divindade) chamada Maman Brigitte, que é inglesa (suspeita-se que sua adoção pelos haitianos é devida aos escravos escoceses e irlandeses deportados). Essa entidade é guardiã das tumbas e dos cemitérios que são marcados com uma encruzilhada (que simboliza o portal entre os mundos). Quando se invoca Maman Brigitte se espera que a deusa salve alguém prestes a morrer, podendo-se observar aqui a propriedade de cura mantida da divindade herdada. Um fato interessante é que uma das etapas do ritual é jogar farinha de trigo no chão. Ela bebe rum com pimenta, tão quente que uma pessoa não possuída por um loa nunca poderia beber, outra característica em comum com a Deusa, o fogo.

Deusa do fogo, da cura, poesia e forja, Brigit é guerreira, uma deusa de muitas faces, que inspira com sua chama e protege àqueles que a buscam.

 

REFERÊNCIAS:

MAY, Pedro Pablo G. Os Mitos Celtas. Angra, São Paulo, 2002.

MACKENZIE, Donald A. Maravilhosos contos dos mitos e lendas escoceses. 1917, domínio público. Tradução por Leonni Moura, 2013.

ÓTUATHAIL, Seán. Foclóir Draíochta – Druid Gaelic Dictionary. (https://www.adf.org/pt-br/rituals/explanations/focloir-draiochta.html).

https://www.adf.org/pt-br

http://cantinhodosdeuses.blogspot.com.br/2011/03/deusa-brighid.html

https://celtocrabion.wordpress.com/noibii-os-sacros/deusas/deusa-da-aurora-e-lareira/

http://www.druidry.org/library/gods-goddesses/brigit

http://www.sacred-texts.com/neu/celt/gafm/gafm06.htm

http://tirtairnge.blogspot.com.br/2012/01/brigit-deusa-dos-tuatha-de-danann.html

http://tirtairnge.blogspot.com.br/2013/03/deuses-brigit.html