O Culto da Jurema

“Oh Jurema encantada, que nasceu em frio chão
Dai-nos força e ciência…”

Há muitos e muitos anos atrás, antes dos pés “brancos” pisarem em terras de Pindorama (nome nativo do Brasil), povos nativos, como os Fulni-ô, Kariri e Xocó, tinham em comum, nas suas tradições culturais e espirituais, o culto à Jurema.

E quem ou o que é a Jurema? A Jurema forma uma tríade sagrada genuinamente brasileira, pois é uma árvore (Mimosa hostilis), é uma bebida sagrada/mágica (possui várias receitas, porém algumas de cunho nativo, como o Cauim), e uma entidade, espírito guia e guardiã das matas, podendo ser interpretada como uma fada ou, mais popularmente conhecido no Brasil, como um ser encantado. Todos estes elementos, e muitos mais, formam o culto à Jurema, como já dito, antecessor às imigrações ocidentais, mas que em algum momento se cruzaram.

E como foi isto? A magia da Europa veio para o Brasil junto com as navegações, não se pode dizer que muitos dos que estavam nos navios eram felizes em vir para cá, em grande parte, estas pessoas vinham fugidas ou como um castigo, mas, o que importa neste caso, é que traziam consigo suas tradições, e chegando em uma terra rica em outras tradições e costumes, não demorou muito para que os portugueses, principalmente, e os nativos brasileiros se encontrassem e reconhecessem entre si uma sincronicidade de culto à natureza.

Sem seus aparatos e ervas de costume como: mandrágora, sangue de dragão, azevinho, etc., estes imigrantes reconheceram aqui suas formas de cultuar e manter suas tradições, mas agora vivenciando o que o que Pindorama os ofertava.

Desta união de saberes surge o culto à Jurema, conhecido originalmente como Pajelança Cabocla e futuramente também como Catimbó, este último “estilo” de culto já com influências cristãs e matrizes africanas, mas, ainda assim, sob a mesma força: ‘a Jurema’.

O culto à Jurema permanece até os dias hoje de forma nativa entre os brasileiros, mesmo que já com influências externas de uma sociedade atual. Já a Pajelança Cabocla, se espalhou entre as cidades não apenas do nordeste brasileiro, mas também em grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro, tendo sobrevivido “no meio do mato” ao período de intolerância jesuíta em perseguição ao paganismo. Este culto apoiou o que na Umbanda se conhece como ‘gira de caboclo’ e também a ‘Encantaria’, este em particular sendo uma das mais belas manifestações mágicas que já pude vivenciar em minha vida, pois em seus cultos se faz presente energias, muitas vezes manifestadas, dos seres encantados.

O culto à Jurema abriga muitos mistérios, que se pode levar uma ou mais vidas para entendê-los, e entender não é o objetivo da Jurema, aqui o sentir é sem dúvidas o maior propósito do culto, junto com a cura.

 

A bebida da Jurema

“Jurema, é um pau encantado
É um pau de ciência,
Que todos querem beber”

Possui várias receitas, como já dito, mas a que mais utilizo para as atividades que desenvolvo é conhecida como ‘Vinho da Jurema’, onde claramente têm em suas bases o vinho (português) e a jurema (brasileira), porém não apenas isto. Há outras ervas, a forma de preparo e os rezos atrelados, que fazem desta bebida um elixir de cura e conexão com as forças da natureza e ancestrais.

Ancestral por quê? Para esta bebida ser sagrada é necessário um ingrediente chamado “semente”, este deve ser passado/oferecido por um mestre ou mestra que também recebeu de um mestre ou mestra e assim por diante, é uma forma de garantir que a bebida da Jurema contenha a essência da bebida original de datas longínquas.

O Culto à Jurema, não está aqui para brincadeiras, apesar de ser uma alegria imensa trabalhar e compartilhar em suas rodas/ritos. Trata-se de um culto de cura: física, mental e espiritual, oferecida não apenas aos membros do culto, mas àqueles da comunidade que buscam estar bem, melhor e equilibrados em suas vidas. Têm-se nos cantos de suas enigmáticas canções uma das mais belas formas de cura na roda de Jurema, estes linhos trazem magias e mistérios, falam de ações, encantamentos e por vezes contam histórias de seus mestres e mestras, e está no Cachimbo e nos Fumos especialmente preparados sua maior força:

“Só solta fumaça quem sabe soltar,
Só fuma cachimbo quem sabe fumar”.

Seus ritmos vêm no som do Maracá (chocalho nativo feito de cabaça, sementes e pedras):

“É na fumaça, é no som do nosso Maracá,
que nós vamos curar”.

Por fim, na Jurema não cabe preconceito, não cabe hierarquia, não cabe ‘mimimi’, mas sim cabe, e é obrigação, o respeito, não apenas por isto, mas também para sermos todos unidos em um único propósito que é a Cura, assim sendo, todas as entidades e condutores das rodas são chamados de Mestres e Mestras, com a máxima de ‘ninguém pode mais que Deus e Deus não pode mais do que ninguém’ é que todos na condução dos ritos são igualmente tratados, com respeito. E ai daquele que desrespeitar um mestre ou mestra juremeiro, pois:

“Jurema, sua folha cura
Jurema, seu espinho mata”.

Normalmente os condutores destes ritos, madrinhas e padrinhos, treinam seus discípulos nas técnicas da pajelança (ações/técnicas de curas nativas) e também na preparação de cada um para as orientações dos mestres e mestras espirituais, que podem vir de várias formas. Um(a) juremeiro ou juremado (graus da iniciação) deve saber oferecer curas com ervas, pedras e outras formas e técnicas naturais para auxílio das pessoas, além das orientadas pelas entidades.

A força da Jurema abençoa a todos os que respeitam sua força, sua bebida não contêm nenhum tipo de contra indicação, se trata de uma bebida de cura e sagrada. Deve unicamente ser utilizada em ambientes ritualísticos e em família para ações de cura, mesmo que ela não eleve o estado de consciência, como a Ayahuasca, ela trabalha no inconsciente da pessoa, equilibrando todos numa vibração única e de abertura às percepções do mundo sutil, potencializada pelos olhos fechados (sentir), pelos cantos, pelas danças rituais e, por fim, no sono, onde pode trazer sonhos vividos e popularmente conhecidos como “sonhos proféticos”.

O culto à Jurema não é religião, pois ela vive em várias famílias e está presente em várias tradições, como já citadas, entre Nativos, Catimbó, Umbanda, Encantaria, cultos familiares e incluída, até mesmo, dentro de outros ritos pagãos, pois não fere o conceito de Deuses ou Deusas, ao contrário, potencializa o contato com estas energias.

“Salve a Jurema Sagrada”