Jurema e Druidismo

Bebida sagrada, vinda de uma árvore de muitos galhos firmes e fortes saindo do chão. Seu vermelho lembra terra batida, suas folhas farfalham e nelas se pode ouvir a voz dos Deuses e Deusas, Mestres e Mestras. Sua madeira enverga, mas não quebra, sua folha cura e seu espinho mata.  Se suas folhas caem, o inverno chega e quando sua flor nasce a mata entra em festa, pois no reino da Jurema vive a Encantaria, reina a magia, cantam os pássaros, onças e seriema.  E se coruja piar, a festa não tem hora para acabar!

‘Salve a Jurema sagrada, pois em seu Reino, ninguém pode mais que os Deuses e os Deuses não podem mais do que ninguém!’

Como falar de algo que é vivo em seu coração, que a cada batida te traz uma nova percepção, sentimento e uma beleza digna de ser ver e admirar? Em minhas desafiantes palavras, tentarei expor o porquê da Jurema, como bebida sagrada, fazer parte do Druidismo que praticamos, aliás, além de ser uma bebida ritual, a Jurema é feita de uma árvore sagrada, brasileira sim, mas não menos importante aos olhos dos Druidas, já que nosso xamanismo celta também é um culto às árvores.

 

Faz algum tempo,

‘Estava eu em pé, último da fila daqueles 3 que foram convidados à iniciação naquele ano. Uma Juremação (tombo da Jurema) há muito tempo esperada. Cada um dos presentes entrava, a convite da madrinha, no círculo de palha formado no chão do templo. Na presença dos mestres, algumas perguntas eram feitas e deveriam ser respondidas, neste e no outro mundo, com o intuito de responder se a pessoa estava preparada para receber tal honraria.  Os Mestres de lá e de cá têm que responder e dar a permissão, assim foi, cada um viveu aquele momento e ao chegar minha vez, coloquei os pés no círculo e fechei meus olhos, entreguei-me ao mistério, em segundos fui envolvido por uma energia intensa, pelo fogo em um mar de labaredas e lá estava ela, senti seu acolhimento imediatamente, ela era um tanto mais alta que eu, com roupas de couro, trançadas como guerreira, sua espada reluzia e seus cabeços pareciam ter vida, seu sorriso era o mesmo que quero ver em minha morte, sua voz, delicada, firme e familiar, Brighid me abraçou perante os Mestres e Mestras e ali confirmou meu caminho, juntos passaríamos pela Iniciação, minha companheira e amada Brighid, abençoou aquele momento’.

 

Do Culto ao Oculto

A bebida da Jurema é utilizada em cultos nacionais, o ‘vinho da Jurema’ é uma bebida mágica que amplia nosso ‘estado mágico’ proporcionando um contato mais íntimo com as forças e mundo sutil, ela potencializa nossa consciência, mesmo que diferente de outras bebidas de poder brasileiras, ela amplia nosso estado de conexão deixando todos de um ritual conectados uns aos outros e às energias ali bem-vindas. Torna a inspiração, a ‘Awen’, mais vibrante em cada um, tornando os ritos mais vivos e criativos. Sentimo-nos mais próximos dos Deuses ou eles mais próximos de nós e também de outros seres da natureza.

Sabe-se que quem bebe da Jurema ’nunca se perde nas matas’, assim, a verdade do coração te leva e te dá oportunidade de ser e fazer o melhor.

A Jurema, como bebida mágica, nos proporciona, além deste contato com a natureza, profundos aprendizados, como uma mãe que cria seu filho para o mundo, não uma mãe qualquer, mas uma mãe da natureza, aquela que impõe a seus filhos desafios, “forçando-os” a conhecer mais de si mesmo e do mundo a sua volta, pois se queres conhecer um Druidismo além das páginas, têm que pôr os pés no chão, sentir a terra vibrar ao som do Tambor, Maracá ou Ramo de Prata enquanto seu corpo, mente e espírito, dançam em volta da fogueira, conectados por ritmos e na comunhão com os Deuses, simplesmente celebrando, ofertando aquele momento, seu tempo, como a maior das oferendas, e desfrutando com Deuses e Deusas e com os outros seres da natureza.

O vinho da Jurema entra em um rito Druídico como bebida sagrada de comunhão entre todos, jamais têm ou terá o intuito de misturar religiões, pois como já dito em outro texto, Jurema não é religião, assim, não se chama Tupã, Anhangá ou Cy para o rito, se convida o espírito da bebida, da árvore, dos espíritos da natureza viva em nosso quintal, para a celebração e tenho certeza que assim tornamos nosso rito mais vivo, real e espiritual.

‘E quem nunca viu venha ver, caldeirão sem fundo ferver’, pois a magia viva da nossa terra está presente em nossos ritos, envolvemos nossas árvores e seres locais em nossas celebrações, honrando assim os ancestrais desta terra e colaborando para que eles permaneçam cuidados e vivos.

‘Se você bebeu Jurema, você se embriagou, salve nosso mestre que aqui chegou’, a embriaguez divina, como podemos observar e sentir no oghan videira, traz a verdade que vem de dentro, mesmo sem qualquer princípio alcoólico. Ao beber a Jurema uma verdade impera dentro de nós, percebemos que o caminho em si é simples e que devemos nos despir de toda e qualquer bobagem que nos impeça de ser feliz, tornamos aquele momento simples e nosso coração anseia por oferecer, ajudar, cuidar e assim fazemos, pois somos todos filhos de uma mesma natureza e cuidar dela é cuidar de nós, da casa, da comunidade.

A Jurema abre os caminhos para que possamos chegar, quer saber onde?

Sinta-se convidado a participar deste mistério. /|\