Lugh

Guerreiro, herói, senhor de todas as artes. O Deus Lugh está presente no panteão céltico em diferentes regiões (Irlanda, Gales e Gália) reunindo diferentes aspectos e habilidades. Em sua maior parte é representado como um jovem de cabelos longos e a face brilhante como o próprio Sol.

Em sua versão irlandesa ele é Lugh Lanfota (de braços longos), o Samildanach (de muitas habilidades), filho de Eithne, filha de Balor “O Olho maligno” – rei dos Fomores, e filho de Cian, filho de Diancechet – o mestre nas artes da cura entre os Tuatha Dé Danann. Além disso, filho adotivo de Tailtiu. Assim Lugh é Tuatha de Danan e também Fomorian.

Ele carrega em seu sangue a ascendência de dois povos eternamente inimigos, herdando assim a rara beleza e sabedoria mítica dos Tuatha Dé Danann, aliada à força e à fúria de combate que apenas um verdadeiro membro da raça dos fomorianos poderia demonstrar.

Lugh é uma rara prova de como, superada as inimizades entre Tuatha Dé Danann e Fomorianos, poderia a união desses dois povos gerar como prole seres que estariam destinados a serem Mestres da Humanidade, e Deuses entre os Homens.

Uma profecia dizia que Balor seria morto por seu neto. Para evitar que isso acontecesse ele mandou matar todos os seus netos, mas Lugh sobreviveu e foi criado por Tailtiu. Após a morte de sua mãe adotiva, Lugh ficou aos cuidados de Manannán sob um sistema de “fosterage” (tutela).

Lugh instituiu em honra a sua mãe adotiva Tailtiu, Deusa irlandesa dos grãos/colheita, o Festival de Lughnasadh. Festa que celebra a primeira colheita. Os primeiros frutos colhidos eram levados a um local para serem abençoados e compartilhados pela comunidade em honra a soberania da terra, representada por Tailtiu. O festival é celebrado no início de agosto. A festividade era um momento de paz entre as tribos, questões jurídicas eram resolvidas, os artistas aproveitavam para mostrar e compartilhar seus talentos, jogos de tabuleiro e esportes eram praticados.

Lugh recebe o título de Samildanach (de muitas habilidades) quando solicita entrar na Corte de Tara, local onde só entrariam aqueles com grande habilidade. Ele se diz ferreiro, padeiro, campeão, entre outras coisas, e Nuada, o rei, diz que a corte estava completa, porém Lugh responde que a corte ainda não tinha alguém com todas aquelas habilidades e por esse motivo ele é chamado Samildanach.

Foi ele o responsável pela derrota do exército Fomorian ao atirar sua lança, conhecida por nunca errar o alvo, contra Balor. A lança atingiu-o diretamente no olho, virando sua visão malévola para seus próprios homens, matando-os.

Lugh fez as pazes com Bres, o último rei Fomorian (que assim como ele era também meio Tuatha de Danan), que ofereceu uma colheita eterna em sua honra, mas tudo o que Lugh pediu-lhe era que ensinasse seu povo como semear a terra, e as maneiras corretas de colheita.

De acordo com o mito “Tain Bó Cuailgne” (O roubo do gado de Cooley), Cuchulain é seu filho.

Existe a discussão sobre Lugh ser um deus solar, e ele é, não representando o sol, mas sua luz, também está relacionado com os raios e trovões, que são a sua lança que traz a chuva.

Em “De Bello Gallico”, Caesar relata que os Gauleses viam Lugus (“versão” gaulesa de Lugh) como “padroeiro” da troca e do dinheiro, e que também era associado aos contratos. O relaciona a Mercurius, segundo a visão romana. Pode também ser considerado o Deus dos juramentos considerando a etimologia de seu nome no proto-céltico: lugi̯o- = juramento.

Ele também cita que os gauleses viam Lugus como “omnium inventor artium”: inventor de todas as artes. Diz que acreditavam que Lugus os guiavam em viagens, e esse aspecto é atestado em Gales (na Ibéria e na Gália também), no conto “Math Fab Mathonwy” (Quarto Ramo do “Mabinogi”) e nas “Trioedd Ynys Prydain” (As tríades galesas), que Lleu (“versão” galesa de Lugh) tem ofício de sapateiro.

Em território Celtibérico existe uma dedicação por parte de um consórcio de sapateiros a uma tríade de Lugou̯es: “Lugouibus sacrum L. L. Vrcico collegio sutorum” – “L. L. Urcico dedicou isto aos sagrados Lugoues, pelo consórcio de sapateiros”.

Segundo essas informações, podemos entender ou que Lugus é tido como “padroeiro” dos sapateiros ou os sapatos se referem simbolicamente às viagens, ao deslocamento. Ou as duas coisas.

Na Gália, diferente da Irlanda, Lugus não é associado ao Sol nem à tempestade. Para estes fenômenos são associados Grannos (ou Belenos/Belinos) e Taranus respectivamente. Na parte que se refere à colheita no rito de Lugunassātis, um reconstrucionista gaulês agradeceria à Taranus, já que é o que rege os fenômenos atmosféricos.

Com a migração, principalmente para as ilhas, os celtas tiveram a tendência de condensar cultos, antes de Deuses separados, na figura de apenas um Deus. O culto a Grannos e a Taranis foi incorporado ao culto de Lugh. Taranis (Deus dos trovões e do clima) era um Deus cultuado em forma de tríade, junto com Esus (um Deus guerreiro muito poderoso e temido na batalha) e Teutates (o Deus protetor da tribo).

As características de Taranis ficam mais claras, pois é evidente a associação dos trovões e da colheita ao Lugh irlandês. Mas analisando a história de Lugh, por meio dos mitos irlandeses, podemos encontrar, como característica marcante, o fato de ser um exímio guerreiro (referência a Esus). Já a ligação com Teutates é um pouco mais vaga, mas quando Lugh integra a corte de Nuada ele é eleito como chefe de guerra, mostrando assim sua característica de protetor da tribo. Outro momento no qual essa característica fica evidente é quando Lugh vem em auxílio de Cuchulain para defender Ulster, permitindo assim que seu filho se recupere da batalha contra Ferdiad.

Frequentemente, principalmente na mitologia irlandesa, as suas funções o identificam como um Deus da Guerra e das Artes Mágicas, mas os poetas e todos os artistas também são por ele beneficiados, juntamente com os guerreiros e os magos. As suas armas sagradas em todas as tradições são a funda e a lança.

Para Koch, em “Celtic Culture – A Historical Encyclopedia” (pág. 1203), Lugus/Lugu é tratado como um prodígio divino, um gênio entre os Deuses, que mesmo conhecendo as artes ligadas à classe produtora/artesã, consegue dominar outras artes das classes regentes.

Acerca das passagens de casais nas quais Mercúrio (Lugus pela interpretatio romana) está presente, encontramos normalmente o Deus com nome romano, acompanhado de sua consorte de nome celta. Trata-se do par Mercúrio-Rosmerta. Rosmerta é uma palavra gaulesa que significa “a grande provedora”. Há duas teorias a respeito da manutenção do nome da Deusa enquanto o nome do Deus foi substituído por um romano: a primeira defende tratar-se de uma alegoria à dominação, o Deus masculino romano representando o conquistador sobre uma divindade local, a outra teoria pretende que as divindades femininas são mais difíceis de substituir, uma vez que sua importância na religião céltica é grande.

Lugus era um dos deuses mais cultuados da Gália, se não o mais cultuado, por esse motivo era urgente, para a dominação romana, que o culto à Lugus fosse capitalizado para os interesses romanos, então a propaganda imperial buscou sobrepor o culto de Mercúrio ao de Lug, ligando-o ao culto imperial, confundindo-se com o próprio imperador.

No País de Gales “Lugh” é “Lleu/Llew”, e, nos contos do Mabinogion, é um dos gêmeos filhos de Arianrod e sobrinho protegido de Gwydyon, sempre retratado como habilidoso em diversas artes.

No mito Llew recebe três maldições de Arianrod: não ter um nome que não fosse dado por ela, não portar armas que ela não lhe desse e não ter uma mulher que fosse desse mundo. Com ajuda de Gwydyon, Llew supera as três maldições: disfarçado de sapateiro recebe o nome Llew Llaw Gyffes “Leão mão hábil” ou “Brilhante” dependendo da tradução; se passando por um bardo recebe de Arianrod armas e armaduras para lutar contra inimigos imaginários criados pela magia de Gwydyon; e recebe Blodeuvedd como esposa, uma linda mulher criada por Gwydyon e Math a partir de flores.

Durante uma ausência de Llew, Blodeuvedd se apaixona por Garonwy. Para que pudessem ficar juntos planejam matar Llew, uma missão próxima ao impossível. Quando atacado, Llew se transforma em uma águia e voa para longe, gravemente ferido. Ele fica nesta forma até ser encontrado por Gwydyon que o devolve a forma humana e cura seus ferimentos.

Como compensação pelo que sofreu Llew propõe ferir Garonwy com uma lança, da mesma forma que foi feito com ele. Garonwy pede para que seja colocada uma pedra entre eles, Llew concorda e desfere o golpe com tamanha violência que atravessa pedra e homem.

Animais sagrados para ele são as águias e os corvos que mantêm vigia sobre tudo aquilo que acontece na Terra. A sua Árvore Sagrada é o Freixo.

O leão também é associado a Lugh, embora seja um animal naturalmente da África e não da Europa, a forma galesa de seu nome “Lleu” significa “leão” e esse fato é também indicado pelo nome da grande cidade francesa “Lyon”, que deriva de “Lugdunum” – A fortaleza de Lugh.

Suas oferendas vão desde poesias, alimentos e bebidas a artes. Essas artes podem ou não ser feitas pela própria pessoa que irá oferendar, mas se tratando de Lugh, é interessante dedicar um trabalho manual a ele.

Lugh, como já foi dito, é um Deus das muitas habilidades, que vai do artesão ao guerreiro. Sentir Lugh, é sentir os raios do sol batendo em sua face, é sentir a sua lança desbravando os caminhos para seguir / cumprir o que precisa ser feito. É sentir a força do guerreiro e os raios do sol iluminando o que precisa ser vivenciado.

 

Referências

 

KOCH, John T. Celtic Culture – A historical encyclopedia. ABC-CLIO. 2005.

LEOURIER, Christian. Contos e lendas da mitologia celta. WMF Martins Fontes. São Paulo, 2008.

MAY, Pedro Pablo G. Os mitos celtas. Editora Angra. São Paulo, 2002.

OLIVIERI, Filippo Lourenço. A assimilação Mercúrio/Lug na Gália Romana. www.brathair.cjb.net

QUINTINO, Cláudio Crow. O livro da mitologia celta – vivenciando Deuses e Deusas ancestrais. Hi-Brasil Editora. São Paulo, 2002.

RUTHERFORD, Ward. Os druidas. Mercuryo. São Paulo, 1994.

SEGANFREDO, Carmen. As mais originais histórias da mitologia galesa – Mabinogion. Artes e Ofícios. Porto Alegre, 2015.

 

http://cantinhodosdeuses.blogspot.com.br/search/label/Deus%20Lugh

Deus Multi-Habilidoso

http://celto-germanic.blogspot.com.br/2009/01/celtic-god-teutates.html

http://sacerdotisasdadeusa.blogspot.com.br/2010/01/lugh.html