Manannán Mac Lir

Manannán Mac Lir, Senhor das nove ondas, guardião do Outro Mundo, Senhor do ramo de prata, Senhor da cavalaria encantada. Muitos são os títulos que ilustram esse Deus ancestral, anterior aos celtas, sua origem é desconhecida, mas sua influência permeia o povo celta estando presente em seus mitos e cultos.

É um deus conhecido pelo seu senso de humor (trickster), porém é sempre amigável e companheiro. O oceano é a melhor forma física de representá-lo, afinal uma visita à praia é sempre divertida e descompromissada, mas ao adentrar o mar depois da quebra das ondas as águas tornam-se profundas e reflexivas.

Outro lado de Manannán é aquele cuidador e protetor, que te dará conforto e acalento nas tragédias da vida.

Grandes tempestades atingem até as águas mais calmas, ele não hesitará em dizer que alguém está fazendo as escolhas erradas na vida, ele não é fã da desonestidade ou ignorância. As tempestades são intimidadoras, porém trazem a prosperidade e a fertilidade, não faz parte dos planos do deus a punição, ele sabe que nossas escolhas são decisões pessoais.

Manannán pode ser uma força proeminente em sua vida ou apenas um conhecido ocasional, ele tem muitos aspectos, seja a figura de um pai ou professor. Outros o conhecem como um protetor ou guardador de portais, alguns o veem como um amante galanteador, mas a maioria de nós o conhecerá como um amigo. É praticamente impossível não o amar uma vez que o conheça.

Manannán é reverenciado pelos irlandeses como uma das principais divindades do mar, é o protetor dos marinheiros e navegadores, deus da navegação, dos mares e do outro mundo (psicopompo). Deus primário dos povos da ilha de Man (pré-celta). Como Barinthus (Gales) leva o corpo de Arthur para Avalon em sua barca.

É considerado o patrono da Irlanda e dos irlandeses. Todos os mortos seguem para um reino, chamado Mag Mell, citada ora como uma ilha a oeste da Irlanda ora como um reino submarino. Este reino, governado por Manannán, é considerado um “paraíso de prazeres” onde a alegria dura para sempre.
Manannán é associado ao espinheiro branco, os marinheiros saíam para o mar levando os frutos da planta, esmagavam e os jogavam no mar quando precisavam de proteção ou assistência de Manannán.

Dizem que ele viajou muito pela Irlanda em diferentes formas e disfarces, e diferente de seu pai Lir, ele aparece em muitas lendas e sempre mantém contato com os humanos. Um de seus disfarces foi como um mestre de truques e ilusões, conhecido como Gille Decair, o “mau servo”, um palhaço, aparentemente tolo, que poderia desaparecer. Apesar das malandragens, nunca fez mal a ninguém.

Uma das lendas na qual Manannán está presente é “Mongan, filho de Manánnan”. Nesta história Fiachna Lurga, o pai de Mongan, era o único rei da província. Aedan, o filho de Gabran, era seu amigo e morava na Escócia. Aedan enviou a Fiachna uma mensagem pedindo ajuda, pois seu país estava em guerra contra os saxões. Um terrível guerreiro fora trazido por eles (saxões) para consumar a morte de Aedan na batalha.

Então Fiachna foi para a guerra e deixou sua rainha em casa.

Enquanto a guerra ocorria, um homem de aparência nobre veio à rainha em sua fortaleza, em Rathmore of Moylinny.

No momento em que ele chegou não havia muitos na fortaleza. O homem de aparência nobre pediu à rainha para arrumar um lugar de encontro com ela. A mulher disse que não havia no mundo tesouros que fizessem ela desonrar o seu marido.

Ele perguntou se ela faria isso caso seu marido estivesse em perigo. Ela disse que, se o visse em perigo e dificuldade, ela o ajudaria com tudo que estivesse ao seu alcance. Então ele explicou a ela que o seu marido estava em grande perigo, pois o terrível homem estava a caminho da guerra e seu marido seria morto pela sua mão. Disse ainda que se eles (Manannán e a rainha) fizessem amor, teriam um filho. Esse filho seria famoso e se chamaria Mongan.

Manannán afirmou que ele próprio iria à batalha que seria travada no dia seguinte na terceira hora para salvar Fiachna, contaria ao marido da rainha suas aventuras e que foi ela quem o enviou como ajuda.

Quando um exército se deteve na frente do outro os barcos viram um homem de nobre aparência diante do exército de Aedan e Fiachna. Ele foi na direção de Fiachna e contou sua aventura com a rainha e que prometeu a ela vir em seu auxílio naquela hora. Ele foi na frente da batalha contra os saxões e os derrotou. Aedan e Fiachna venceram a batalha.

Quando Fiachna voltou para a sua casa sua esposa estava grávida e deu à luz um filho, o Mongan, filho de Fiachna. Ela contou tudo o que ocorrera e ele agradeceu pelo que ela fez por ele.
Mongan é filho de Manannán Mac Lir, embora seja chamado Mongan, o filho de Fiachna.
Manannán deixou uma estrofe com a mãe de Mongan, dizendo:

Vou para casa,
A pura manhã aproxima-se pálida.
Manannan Mac Lir,
É o nome daquele que veio a ti.

Algumas lendas dizem que Manannán veio buscar Mongan no seu terceiro aniversário e só o devolveu no seu décimo segundo aniversário.

O mito “A jornada maravilhosa de Cormac” apresenta Manannán como um jovem em posse de um galho encantado, com nove maçãs vermelhas. O som emitido pelo balanço do ramo era capaz de curar qualquer doença ou tristeza.

O Rei Cormac lhe pede aquele galho para poder utilizá-lo em seu reino. O jovem concorda, mas pede em troca sua mulher e dois filhos. Após 1 ano longe de sua família, Cormac resolve ir busca-los e segue caminho por entre um denso nevoeiro até o reino de Manannán.
Após o nevoeiro se vê em uma campina verdejante onde vê três fatos estranhos que são explicados posteriormente pelo próprio Manannán:

  • Um grupo de cavaleiros que cobriam uma casa com plumagens de pássaros desconhecidos. Quando um lado ficava pronto o outro se desmanchava imediatamente. – Estes são como as pessoas que andam pelo mundo em busca de fortuna e riqueza, quando retornam para suas casas estão sempre descobertas, e assim continuam para sempre;
  • Um jovem arrastando troncos para uma fogueira, mas antes que pudesse encontrar um segundo tronco o primeiro se queimava completamente. – Esse é semelhante àqueles que trabalham para os outros, enfrentam muitas dificuldades e não conseguem aquecer a si próprio;
  • Três fontes com uma cabeça em cada. Da boca da primeira escoavam dois córregos e para dentro dela um. Da segunda boca escoava um córrego para fora e outro para dentro. Três córregos fluíam da terceira. – As cabeças representam as três espécies de homens: alguns dão livremente quando recebem livremente, alguns dão livremente embora recebam pouco, alguns recebem muito e dão pouco, e esses são os piores das três espécies.

Após encontrar sua esposa e filhos Cormac se vê diante de Manannán Mac Lir, Senhor da Cavalaria Encantada, que lhe diz que tudo o que fez foi para leva-lo até seu reino. Manannán lhe dá três presentes: uma toalha capaz de produzir qualquer tipo de alimento, um cálice que se despedaça em quatro partes toda vez que uma história falsa é contada diante dele e se refaz diante a uma história verdadeira e o galho com as nove maçãs vermelhas.

Neste mito temos Manannán associado ao ramo de prata, cujo som é capaz de feitos mágicos, outra associação é às brumas, que ao atravessá-las é possível chegar ao outro mundo.

O Deus Manannán também está presente no mito “A viagem de Bran Mac Febal”. Neste mito Bran sai para caminhar nas redondezas e ouve uma música que o faz adormecer. Quando ele desperta vê perto de si um ramo de prata com flores brancas e não era fácil distinguir as flores do ramo.

De volta à casa real uma mulher misteriosa aparece e canta 50 estrofes. Na canção ela diz que o ramo é da macieira de Emain e continua narrando as maravilhas das ilhas a oeste de nós.

Ela descreve 10 ilhas e afirma haverem “três vezes cinquenta ilhas distantes”. Ela incentiva que Bran inicie uma jornada pelo mar a fim de alcançar a ilha das mulheres.

Quando Bran inicia sua jornada, após 2 dias e duas noites no mar, vê um homem que vem pelo mar em uma carruagem puxada por cavalos que cavalgam as ondas como se fossem terra firme. Esse homem se apresenta como Manannán, o filho de Lir e diz estar indo à terra conceber um filho (como visto no conto: Mongan, filho de Manannán).

Bran continua sua jornada até a ilha das mulheres e lá permanece por muitos anos. Quando resolvem voltar para Irlanda é alertado que não deve tocar o solo, mas um dos homens de Bran salta para a terra firme e transforma-se imediatamente em cinzas.

Novamente Manannán aparece associado ao ramo de prata e ao outro mundo, porém desta vez ele aparece relacionado ao mar, seu domínio, o qual cavalga com sua cavalaria encantada.
Sendo senhor do mar, Manannán possui uma barca encantada. Sua barca é descrita no conto “A busca dos filhos de Tuiream” como o mais veloz sobre as ondas e que crescia conforme era carregado, bastava pronunciar o destino desejado que ele partiria no rumo certo.

  • Elementos: Oceanos, Tempestades, Projeção Astral, Proteção Física e Conhecimento Mágico
  • Aspectos: Trickster, Pai, Guardião dos Portais, Amante, Sábio
  • Símbolos: Triskelion, Tridente
  • Planta: Hawthorn – Espinheiro Branco

 

REFERÊNCIAS

LÉOURIER, Christian. Contos e lendas da mitologia celta. WMF Martins Fontes, São Paulo, 2008.
SILVA, Vila Maria. As maçãs douradas e outros contos celtas. Aquariana, São Paulo, 2012.
http://druidismo-xamanismo.blogspot.com.br
http://www.manannan.net