Rito de Imbolc do Clã Floresta de Manannán

Sossobravam sibilantes sombras soturnas sobre o salão escuro.

Chamas sangravam o ar com seu calor abusivo de uma noite de verão.

Irrespirável ar úmido.

Os tambores ecoavam sua canção pelos rincões da terra, fazendo as labaredas serpentearem freneticamente seu ritmo crescente.

Foi então quando vi uma forma feminina se abrir pelas línguas que estalavam oriundas da madeira, seduzindo olhares, desconectando mortais dos rigores dos látigos da rotina; a sagrada mãe ayahuasca já estendia seus doces braços, ofertando cura aos que haviam comungado do primeiro beijo de sua seiva abençoada.

Era dia de homenagear a amada filha do Dagda e, a partir daquele instante, qualquer possibilidade de dúvida fora dissipada: Brighid estava conosco.

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Os iniciantes se espalharem pelo terreno, ofertando, apazigaundo forasteiros com cigarros de palha, hidromel e moedas. Outras oferendas foram feitas aos ancestrais da terra e aos espíritos do local, mas, a esta altura, não me recordo de que consistiam…

Brigid, a homenageada da noite, recebeu também uma oferenda, a qual consistia de pão, mel, queijo e hidromel. A ânfora do hidromel foi por mim partida.

Sem prejuízo, os mais antigos na tradição preparavam a lareira, o altar e demais utensílios para o trabalho da noite.

Consagração e agradecimentos feitos, todos sorveram da medicina sagrada uma primeira vez. O fogo ardia. Tiveram início os cânticos de pajelança, ao ritmo cadenciado e contagiante dos tambores.

Enquanto fitava a lareira e imergia no ritmo, pude notar que alguns dos integrantes já haviam abraçado com profundidade a força da ayahuasca. Alguns, inclusive, com profundos processos de limpeza. Guiando-me pelo trabalho, a borboleta azul me levou ao encontro de meus animais de poder; o besouro rinoceronte voava por cima do rinoceronte encouraçado e, num átimo de segundo, corria e voava por sobre verdes campos, excitado, maravilhado, livre. Indagava o que deveria fazer para me curar e então me foi dito: “Deixai fluir. Não force. Seja. Veja. Esteja.”

Voltei a ver meus irmãos de roda e muitos estavam profundamente embrenhados na força.

A lareira me fitou, a chama me encarou e eu respirei.

Consciente estava para o segundo sorvo da mãe curadora.

Logo, espaço e tempo deixaram de existir, formas geométricas não existentes, cores nunca vistas, seres amorfos, de luz, traziam meus animais de poder.

O oráculo da metamorfose e da mudança, vaticinado a mim no dia anterior, se repetia: a serpente rastejava, lentamente, e logo seu corpo não mais podia permanecer naquela pele.

Apertado, incomodado, desconfortável, troquei de pele. Segui rastejando, mais confortável, mais confiante. Havia morrido, mas vivia novamente.

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A madeira incandescente se consumia em brasas, queimando restos de uma vara de trigo.

Meu corpo, exausto, pulsava e clamava pela volta do equilíbrio estável, ainda que estando sentado e em total repouso.

Minha mente descansava. Meu coração ardia.

Brighit havia nos abraçado esta noite.