Ao som do Tambor eu vou…

O som ressoa em nossa mente e nos faz viajar. Nesta jornada, despertamos nosso poder criativo e alinhamos uma conexão muito especial em nosso eixo Ego x Self, e vamos além, pois no mundo das imagens, da mente, do inconsciente, adentramos no profundo de nós mesmos, nossos princípios de fé, de inspiração. Neste mundo não se conhece limites, nem barreiras, é um mundo onde todas as possibilidades são verdadeiras. Voe alto, mergulhe profundo, acesse a terra dos ancestrais, converse com animais e troque com mestres e mestras sabedorias que vão além do tempo e linguagem comum. Devem ser interpretadas de uma forma simbólica, e quase nunca literal, porém nunca julgadas.

Dentro do Xamanismo buscamos de diferentes formas o equilíbrio entre corpo, mente e espírito, é um equívoco falar que xamanismo é um caminho de luz, pois sem a sombra o xamanismo nunca fará sentido. Costumo dizer que quando falamos em cura no xamanismo falamos em mergulhar na sombra da dor, do desafio, para assim superá-lo, desta forma, a sombra e até a escuridão fazem parte da iniciação do xamã.  Uma das ferramentas para este equilíbrio é a ´jornada xamânica´, também conhecido como ´vivência xamânica´, nela, guiados pelo som, na maioria das vezes do tambor, elevamos nosso estado consciente, ampliando nosso poder pessoal e de visão, além de nosso poder criativo, para assim deixar fluir pensamentos, imagens e sensações na nossa vivência.

Mas o que é uma jornada xamânica?

Podemos partir do básico e entender a jornada como uma caminhada, mas quando incluímos elementos xamânicos transformamos esta caminhada em uma vivência transformadora, pois saímos do nosso estado comum para acessar o mundo sutil e com isto descortinarmos verdades que nos inspiram a seguir em frente, mais conscientes, fortes e inspirados. Uma jornada xamânica funciona como um rito pessoal, um momento para elevar a mente e centrar junto ao espírito, um momento para si e ao mergulhar em seu mundo ter acesso às comunicações espirituais. Cabe aqui dizer que estas comunicações são com nossos amigos e aliados Animais de Poder, Mestres Espirituais: como Angassus, Encantados, Fadas e Elfos, sem esquecer das divindades, Deuses e Deusas das tradições a quais dedicamos culto. Muito se assemelha a jornada xamânica com a Meditação Ativa, pois a técnica de relaxamento e visualização são semelhantes, porém seus propósitos diferentes, na meditação ativa deixamos fluir as imagens e delas colhemos símbolos, significados que ao serem interpretados trazem revelações de nosso inconsciente e podem ser utilizados como ferramenta terapêutica, como na psicologia junguiana. A Jornada em sua maioria é iniciada por um caminho guia, um trajeto pré-estabelecido anteriormente ou durante o processo, direcionando assim parte da visualização, e após um roteiro inicial a jornada se torna livre.

Um caminho seguro

É recomendado não realizar a jornada com muita frequência, como todos os dias, por exemplo, a não ser que por um período curto e com objetivos bem determinados. Uma frequência muito grande nas vivências pode tornar o outro mundo mais atraente que este, fazendo assim, o outro mundo ser a verdade e este algo supérfluo e passageiro, contrariando uma das maiores bênçãos que a vivência nos traz, que é um contato saudável com o outro mundo e dele extrair símbolos e informações para sermos melhores neste mundo, nosso mundo comum.

Com isto já podemos observar que o outro mundo não traz informações literais, ou raramente o faz, estas vivências devem ser interpretadas de forma simbólica, devem ser digeridas, pensadas e conformadas a nossa situação de vida, mesmo que a mesma traga interpretações para um futuro próximo. Vale também observar que as mensagens são sempre ao viajante, raro os casos de recados a outros… assim, cuidado, uma frequência muito grande nas jornadas podem gerar confusão e todo seu benefício se tornar uma muleta, um beco sem saída de contradições de nosso ego com nosso desejo íntimo.  Recomenda-se uma frequência semanal para as meditações, ou alguma outra frequência que seja recomendada dentro de um trabalho de cura específico.

Não coma nada

Pode parecer uma bobagem, mas dentro de algumas tradições, principalmente as europeias, recomenda-se não comer nada durante sua jornada, nada que esteja no outro mundo. Quando questionei a respeito disto me deram a seguinte resposta ´Comer no outro mundo faz com que seu espírito fique preso àquele lugar, mantendo sua mente e espírito conectados ao mundo sutil, mesmo que em terra´, entendo assim que o alimento é uma energia e esta energia vibra sobre aquele local, comendo este alimento ficamos presos, mesmo que temporariamente, àquele local.

Percebo um mesmo princípio nas oferendas que fazemos, buscamos com elas a atenção de nossos Deuses, seja para agradecer ou pedir por uma graça, pois cremos que eles próprios vêm aceitar nossas ofertas.

Sendo assim, evite comer algo do outro mundo, mesmo que pareça tentador. Caso lhe seja oferecido, uma dica é pedir a nossos guias e animais de poder autorizarem seu consumo.

Deixo por último, também registrado, que o alimento é fonte para venenos e mandingas, mesmo no outro mundo, mesmo que acessamos um local sagrado para nós. Neste outro mundo não vivem apenas nossos aliados, primeiro, porque não se conhece certo e errado neste outro mundo, e segundo, que nem todos espírito vibram amor, há também aqueles mercenários que fazem ou acolhem trabalhos sujos enviados por outros, sejam inimigos ou “amigos” em peles de cordeiro.

Um primeiro contato

Largue tudo e caminhe com a natureza, respire o ar fresco e observe os tons de verde abundante em quase todas as regiões do Brasil, caminhe descalço, cheire flores, molhe suas mãos, rosto e nuca a beira do rio, se possível molhe seus pés ou dê logo um bom mergulho. Nada substitui o contato vivo com a natureza, pois ela é a grande inspiradora, pois buscamos esta conexão entre natureza interna e externa.

Uma música meditativa sempre ajuda, há aqueles, como eu, que preferem o som do tambor ressoando no ambiente, sendo assim, o som sempre apoia na conexão. Durante a música, respire profundamente por 3 vezes trazendo o ar para os pulmões, segurando-o por um tempo e expirando lentamente. Sinta-se num escuro aconchegante, como numa caverna a luz de uma pequena fogueira, esta parte nos conecta ao que chamamos de útero da mãe terra, que claro, nos traz uma memória interna de nossa estada no útero de nossa própria mãe biológica, ao estar acolhido neste local observe bem como ele é, as paredes, as imagens do fogo contra a parede…aos poucos perceba a luz aumentar e ir iluminando um caminho que leva para fora desta caverna. Pare um momento antes de sair da caverna e observe, ao dar o próximo passo estará entrando no mundo mágico e lá todas as possibilidades se abrem ao encontro de si mesmo e de si para todo o restante…Boa viagem! Após alguns minutos, 9, 12, 18… (Não se estenda muito) retorne pelo caminho de onde veio e volte à porta da caverna, olhe para traz e agradeça tudo que viu e sentiu, entre novamente na caverna e perceba a luz diminuir até novamente estar no aconchego da caverna e do fogo. Respire por 3 vezes, seguindo os mesmos passos anteriores e abra os olhos.

Costuma-se anotar a experiência, ler suas vivências posteriormente ajudam muito na interpretação e absorção das mensagens e ensinamentos obtidos.